Texto

Querida futura eu,

Espero, do fundo do meu coração, que essa falta de paz que sinto hoje já tenha passado. Bem sei como é insuportável conviver com isso.

Espero que você já tenha perdoado essas mágoas que eu trago no peito e esteja em paz consigo mesma e comigo também, o seu passado. Não sou mole, eu sei.

Espero que seu sorriso tenha voltado a ser sincero e que alguém no meio do caminho entre eu e você tenha descoberto o morivo da nossa vinda à Terra. Sabe, é terrível viver sem propósito.

Espero que você tenha se cercado de amigos e não seja uma pessoa tão sozinha quanto eu. É ridículo, juro! Se não for o caso, levanta já essa raba daí e vai fazer umas amizades. Dizem que precisamos delas na vida, se eu falhei miseravelmente, você precisa ajeitar isso.

Tomara que você tenha voltado a escrever como a versão antes de mim escrevia. Nosso coração pede por isso.

No mais, veja bem: protetor solar, você é branquela sim, eu estive enganada. Para de mudar esse cabelo o tempo todo. Mais água com limão e menos cerveja. Se cuida pra não engordar de novo. E, por favor, chega de cismar com esses caras bizarros!

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Lembranças do Facebook: sei que não foi nada do que a gente imaginou…

Oi! Lembra de mim?
O Facebook acabou de me mostrar que já fazem seis anos. Não é louco?! Parece que fazem milênios.

Eu sou aquela garota confusa que entrou na sua vida quando você tava ganhando o mundo. A gente se divertiu tanto, meu Deus!! Só de pensar eu sinto o gosto das ressacas misturadas com mais cerveja, vodka e chicletes de morango. Cereja não, morango!

Ouvi sua voz em um vídeo que apareceu nessas tais lembranças e revivi todas as vezes que você cantou pra mim enquanto o dia amanhecia e eu chorava por outro. Menina boba… 

Você foi o cara que mais cuidou de mim na minha vida! E o que mais me fez sair da zona de conforto chata que eu (ainda) vivo. Com você eram dias amanhecendo com a vista mais linda do mundo, “se arruma ai” de última hora e muita, muita história pra contar.

Meu Deus, que saudade ver isso tudo me teouxe!!! Junto com aquela sensação que me fez preferir fingir dirante todo esse tempo que você nunca existiu: a de que eu te deixei escapar por idiotice. Por amar demais quem já nem sabia mais quem eu era. Ah, como você repetia isso pra mim: “Eu tô aqui, eu sou real e você tá me trocando por um fantasma…” nunca esqueci. Foi só depois de você que eu entendi, sabia?! Você foi importante assim!

Não vou te procurar. Fazem anos, não sei se você lembra e, acima de tudo, não me parece justo. Como dizem os versos mais lindos que alguém já endereçou à mim “a gente se reencontra se tiver de ser, e ai vai ser pra casar, te ver chegar de branco no altar e fazer nossos filhos de frente pro mar“.

Só queria registrar que você acabou de entrar em uma das minhas 5 coisas preferidas de lembrar. E que eu sempre vou me arrepender um pouquinho pela garota que eu era não ter conseguido ser a mulher que você precisava. Vai saber onde teríamos ido parar?!

Muita luz, meu bem, e muita saudade também. Se eu aparecer por ai e der saudade, nem pensa muito, vem!

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Escreva sobre isso.

Eu odeio o que você fez.

Odeio no que você me transformou.

Odeio ter sido reduzida a nada.

Odeio a vida que você estragou.

Odeio não conseguir ter dar um sorriso sincero.

Odeio sentir culpa por isso.

Odeio que você se faça de cego que não vê o que fez comigo.

Odeio ser o eco da pessoa que eu deveria ter sido, porque você me transformou em nada.

Odeio a vida que você me impôs.

Odeio odiar a vida.

Odeio não ter sonho.

Odeio não ter esperança.

E, meu Deus, como eu odeio amar você mas não conseguir mais gostar de você.

Odeio essa sua vida alternativa ridícula onde eu mal existo e pouco importo.

Odeio, odeio, odeio tudo que te cerca agora.

Odeio o cara mesquinho que você virou.

E a pessoa sem vida que eu virei por causa desse cara.

Odeio precisar de terapia pra superar você.

Odeio ter vontade de não te ver.

Odeio mais ainda querer te ver e quando você aparece, querer que você vá embora.

Odeio quando você fala e eu não acredito em mais nada.

Odeio revirar o olho pra você. É instinto.

Odeio que você tenha destruído a gente e nos substituído com tanta facilidade.

Odeio o que você faz quando cansa dessas todas que passeiam do seu lado pensando que ganharam na loteria.

Odeio que, ainda assim, você não aprenda nada e abra mão da gente sem piscar. Sempre, todas as vezes.

Odeio ter o instinto de te defender até de mim.

Odeio quando falam de você e eu preciso abaixar a cabeça e ouvir envergonhada porque, surpresa, eles estão certos e eu que sempre estive enganada.

Eu odeio, acima de tudo, mais que tudo, saber que o certo seria te odiar e, ainda assim, te amar. 

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Eu prefiro continuar acreditando.

Somos uma geração de desacreditados. Muito Tinder e pouco olho no olho. É tudo rápido, sem charme e sem a menor esperança de futuro. Hoje um cara do Tinder me perguntou onde moro e logo em seguida me chamou pro cinema. Aposto que fez o convite pra outras 15. Cinema? Sem conversar? Sem saber nada um do outro? Pra mim não dá. Mas, te garanto, alguém aceitou o convite. É o que mais vejo acontecer. Muita intimidade física pra pouco conhecimento mútuo. Uma amiga andava saindo com o mesmo cara há uns dois meses, perguntei o dia do aniversário dele e ela não fazia a menor idéia. Nome da mãe? Muito menos! Não sei se eu que sou maluca mas não consigo passar dois meses beijando a mesma boca e não ter vontade de conhecer um pouco mais o outro. Eu costumava adorar conhecer pessoas. Só que ai elas ficaram vazias e eu desencantada. 

Nossa geração tem aplicativo pra paquera, aplicativo pra quem só quer sexo, aplicativo que dá a mensagem de amor pronta e acentuada de maneira incorreta (e o outro nem se dá ao trabalho de corrigir!). Nossa geração coleciona contatinho como se fossem medalhas de ouro. Contatinho pra que? Pra suprir a carência momentânea e depois sumir de novo. Até a próxima, baby! Esses dias me peguei reclamando que não tenho um contatinho nem pra me dar boa noite. Horas depois me toquei do que eu havia falado. Pra que eu quero o boa noite de um estranho, meu Deus? O conceito tá tão tatuado na gente, que até quem não gosta do movimento, acaba indo na onda.

Eu não quero contatinho só porque ando mais carente do que sei lá o que. Eu odeio usar o Tinder! Odeio as conversas vazias que morrem em dez minutos. Odeio me sentir pouco só porque não dei match com o cara gato que passou ainda agora.

Onde eu clico pra resgatar aquele bom e velho “ouvi essa música e lembrei de você”? Que aplicativo eu baixo pra encontrar quem queira sentar, ainda que seja no podrão da esquina, e conversar uma noite inteira? Veja bem, eu nem tô falando de namoro. Tô falando do antes disso, daquela coisa maravilhosa que a gente sente antes do primeiro beijo, do frio na barriga quando o nome da pessoa pisca na tela do celular, do sorriso bobo com qualquer bom dia. Tô falando daquela parte maravilhosa que é conhecer e se envolver pelo outro, antes mesmo da paixão.

Pra vocês terem idéia, menos de três meses atrás eu fiquei com um cara solteiro em uma festa e ele ficou insistentemente atrás de mim o próximo mês todo. Há duas semanas ele posta fotos sem parar com o novo amor da vida dele. Ou seja, enquanto ele insistia pra me ver, ele já estava conhecendo o amor da vida dele ou descobriu todo esse sentimento em, sei lá, 15 dias.

Somos a geração que banalizou o amor. O sexo, então…

Mas eu prefiro continuar acreditando. Quebrando a cara, passando por enormes períodos de seca braba, me sentindo muito sozinha, mas acreditando que ah, meu bem!, em algum lugar ai fora existe, pelo menos, uma pessoa que pensa assim também.

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Em branco.


É que eu tenho medo, sabe?! De nunca mais sentir. De ter sido só isso. De realmente já ter gasto minha cota. Sei lá, eu só não sinto. Não chego nem perto de sentir. E isso me dá agonia porque por todos os lados tem gente sentindo e explodindo por tanto sentir, e sentir me fazia ter propósito, me fazia escrever. Agora eu sou uma enorme página em branco. Ali jogada, esperando. Querendo que alguma coisa me comova e olhando tudo com desdém. Quando algo dá certo eu dou de ombros. Quando dá errado, bom, eu já estava esperando.

Ninguém me diz nada novo, nem os livros. Às vezes parece que tudo aquilo foi em outra vida, às vezes parece que foi tão ontem que eu continuo apavorada demais pra tentar outra vez. E ai, eu vou indo assim, em branco. Esquecendo até como é dar oi, e com medo de nunca mais sentir nem frio na barriga.

Meu avô se foi e minha primeira reação foi parar e olhar pro nada. Não pensei em ninguém que eu quisesse falar naquele momento, ninguém que eu fizesse questão da presença ali. Ninguém que me reconfortaria. Naquela hora percebi a verdade que estava na minha cara durante todo o tempo: sou sozinha. Ridícula e socialmente sozinha pra quem já foi tão cercada de gente. Emocionalmente sozinha pela primeira vez. Não doeu, no fundo eu já devia saber. Mas foi ali, assim, no meio da dor, que constatei. E, de novo, só tive pena por tudo que era pra eu ter sido e nunca fui.

Dizem que sou nova demais mas eu me sinto exausta, velha, vencida e ranzinza. Talvez passe logo, talvez eu me acostume. Talvez amanhã eu venha aqui escrever em letras garrafais que tô sentindo de novo, ou então, finalmente aceite o destino de adotar aquele primeiro gato da coleção. Vai saber… O que sei é que hoje, meu Deus, eu morro de medo de nunca mais sentir.