Texto

Em branco.


É que eu tenho medo, sabe?! De nunca mais sentir. De ter sido só isso. De realmente já ter gasto minha cota. Sei lá, eu só não sinto. Não chego nem perto de sentir. E isso me dá agonia porque por todos os lados tem gente sentindo e explodindo por tanto sentir, e sentir me fazia ter propósito, me fazia escrever. Agora eu sou uma enorme página em branco. Ali jogada, esperando. Querendo que alguma coisa me comova e olhando tudo com desdém. Quando algo dá certo eu dou de ombros. Quando dá errado, bom, eu já estava esperando.

Ninguém me diz nada novo, nem os livros. Às vezes parece que tudo aquilo foi em outra vida, às vezes parece que foi tão ontem que eu continuo apavorada demais pra tentar outra vez. E ai, eu vou indo assim, em branco. Esquecendo até como é dar oi, e com medo de nunca mais sentir nem frio na barriga.

Meu avô se foi e minha primeira reação foi parar e olhar pro nada. Não pensei em ninguém que eu quisesse falar naquele momento, ninguém que eu fizesse questão da presença ali. Ninguém que me reconfortaria. Naquela hora percebi a verdade que estava na minha cara durante todo o tempo: sou sozinha. Ridícula e socialmente sozinha pra quem já foi tão cercada de gente. Emocionalmente sozinha pela primeira vez. Não doeu, no fundo eu já devia saber. Mas foi ali, assim, no meio da dor, que constatei. E, de novo, só tive pena por tudo que era pra eu ter sido e nunca fui.

Dizem que sou nova demais mas eu me sinto exausta, velha, vencida e ranzinza. Talvez passe logo, talvez eu me acostume. Talvez amanhã eu venha aqui escrever em letras garrafais que tô sentindo de novo, ou então, finalmente aceite o destino de adotar aquele primeiro gato da coleção. Vai saber… O que sei é que hoje, meu Deus, eu morro de medo de nunca mais sentir.

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Não deixe que alguém abuse de você só porque você o ama.

Não, não vai passar porque você se faz de coitado. Não vai passar só porque você se acha injustiçado e grita para os 4 cantos o tamanho de tal injustiça. Não vai passar só porque você se acha certo e é incapaz de reconhecer os milhões de erros que cometeu.

Não, não vai passar só porque você finge que passou. Ou porque, supostamente, resolveu o problema agora. Resolveu o que? Continuo no mesmo lugar. E não, não vai passar quando eu deixar de estar. Você me deixou sozinha no meio do temporal e agora, só porque parou de trovejar, acha que vou esquecer? A força da chuva continua machucando as minhas costas, só você não vê.

Não, não vai passar só porque você quer. Eu não vou esquecer, tenho essa mania. E não, nunca mais vai ser igual. Você não merece a tentativa, eu não mereço MESMO outra decepção. Não vai passar nem no dia que deixar de doer. Dizem que vai parar um dia, eu duvido. Mas, ainda assim, acredite: não vai ter passado.

Você pegou pesado, abusou de quem muito te queria bem. Arriscou tudo. De novo. E, pior, ignorou outra vez a lição. Não vai passar o descaso, o abandono, a falta de senso e de compaixão. Não vai passar as muitas lágrimas, os muitos quilos, a falta de preocupação. Não vai passar, mesmo se você começar a tentar.

Não vai passar porque eu não quero, porque você destruiu o meu sagrado, me levou pro fundo do poço e me largou lá, enquanto brincava de casinha outra vez. A milésima delas.

Não vai passar e, assim como eu precisei lidar com tudo, tenho certeza que você vai aprender a conviver com isso: não, querido, essa merda toda não vai passar.

Pouco me importa seu dinheiro, sua vida dos sonhos, seus milhares de planos. Sua ganância ferrou tudo outra vez. Cuidado, dizem que a terceira é pra acertar. Acredite, meu medo da próxima jamais vai passar.

Além do mais, a receita é velha: “quando alguém te engana uma vez, ele é o culpado. Se acontecer a segunda, a culpa é toda sua”. E não, eu não vou carregar a culpa de mais nada que não me pertence. Ninguém vai fazer com que eu me sinta assim de novo, nem você.

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Até.

Não é despedida, é só um até logo. Não pode ser despedida, diante desse amor imenso no peito, dessa falta de jeito, desse seu não dito tchau.

Não foi despedida aquela senhora festa, aquele “volta logo”, aquele beijo na testa.

Se fosse pra me despedir eu diria que sua ausência vai ser uma presença constante, que até as coisas que me irritavam, farão falta e que eu trocava qualquer coisa que tenho por mais uns anos de aprendizado.

Se fosse despedida, eu diria que vou ser forte, mesmo que às vezes cê me olhe e eu esteja chorando. Diria que vou ajudar com os pequenos, que vou encher de amor essa sua moça doida mas que, ainda assim, não conseguirei ser 1/5 do que você foi. 

Não é despedida, a gente se encontra. Se reencontra. Reinventa nossa história, arruma outros apelidos, coleciona mais memórias.

Até breve, até já. 

Passa esse seu anjo da guarda porreta pra cá e deixa comigo, amor pra eles não vai faltar.

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Melhor sozinha do que com um amor geração Y.

Eu não quero ser desse coletivo maluco que mede o interesse no outro pela quantidade de fotos que ele dá like em um dia. Eu não quero saber que você tem interesse em mim porque demos match no Tinder. Eu não quero que nosso maior contato seja uma meia dúzia de fotos trocadas no Snapchat. Eu não quero saber das festas que você vai através de confirmação de presença no Facebook. Não quero ser desse tipo de pessoa que precisa ignorar o outro no Whatsapp pro interesse não esfriar.

Eu quero alguém que olhe na minha cara e fale “eu quero agora e você?”, eu quero ter com quem pegar o carro no domingo, ir pra praia e esquecer dessa maluquice que é a vida. Eu não tô nem ai pra dinheiro, eu quero deitar e assistir filme velho quando não der pra fazer nada. Quero quem me chame pra festa tal porque comigo vai ser muito melhor e não só me coloque nos eventos sem dizer nada. Eu tenho pavor de Whatsapp, eu quero quem me ligue se tiver algo importante pra falar ou só pra me dar boa noite mesmo. Eu quero quem me dê boa noite. Ou que pegue o carro e venha dormir comigo porque tá com saudade demais pra aguentar até amanhã. Eu quero elogio de verdade, na cara, like nas minhas fotos minha família inteira dá. E ela é grande o suficiente!

Eu não quero um crush, coisa mais insossa… crush! Nem colecionar contatinho na agenda pra me sentir bem quando a auto estima estiver lá embaixo. Eu quero amigo, parceiro, coisa real. Tipo de gente com quem eu possa encher a cara e dançar até de manhã ou chorar agarrada numa parte da noite. 

Pra ter lance virtual, eu prefiro continuar com meus livros. Essa geração terrível que faz tudo ao mesmo tempo, acha que conhece o outro pelo mapa astral e curtidas que dá no Facebook, e determinou que é errado demonstrar sentimento de maneira explicita, jamais me representou.

Minha mãe diria que não aprendi nada e que tô aqui de novo sonhando com o principe encantado, mas não, eu quero os defeitos também. As brigas olho no olho, o dormir puta e acordar querendo resolver, gritar, xingar e acabar desculpando porque é errando que a gente aprende mesmo. Eu quero qualquer coisa que seja real, de verdade, paupável e, no fim das contas, fodamente old school.

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Mantra.


Todo dia um esforço surreal pra me lembrar que tá ruim mas podia ser pior. Todo dia uma luta intensa pra não deixar a cara amarrada e o humor de cão me transformarem em apenas isso. Eu sou mais que isso. Eu gosto de sorrir, só é muito difícil aqui. O tempo todo uma batalha interna pra me lembrar quem eu sou apesar de tudo que me dói, apesar do tanto que me machucam, do descaso de onde eu deveria ter amor.

Mas eu sou forte, aprendi. E vou superar também. Sozinha, como sempre. E nunca mais ninguém vai tirar meu mundo do prumo só porque eu tenho essa pose toda mas, no fundo, sou só uma garota que acredita em tudo e defende até quem a faz mal.

E, ainda que eu precise travar um milhão de guerras, me esforçar o triplo ou até mudar de cidade, nunca mais ninguém vai passar por cima de mim. Nem mesmo quem eu amo. 

Eu sou forte.

Eu vou superar.

E foda-se.